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O Brasil e o retorno velado à Idade Média

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O BRASIL E O RETORNO VELADO À IDADE MÉDIA

12736058_10205971303703813_1319360769_nO Brasil não teve Idade Média. Ao menos, não no sentido histórico. A Europa ainda demoraria certo tempo até alcançar o continente americano e colonizar – a ferro, fogo e crucifixo – nossos índios nativos.

Mas, aparentemente, isso nunca impediu que olhássemos para o Medievo com certo saudosismo. Um saudosismo estranho, é verdade. Uma nostalgia que não é bem ao certo uma nostalgia. É um sentimento que fantasia o passado,  que realça o sabor daquilo que a história narra como benevolência e embaraça todas as atrocidades que acompanharam a marcha da humanidade. Assim como corriqueiramente esquecemos o Inferno trazido pelos conquistadores aos povos indígenas da América, e os pintamos como heroicos desbravadores. Afinal, parece ser uma tendência humana, demasiada humana, romantizar o pretérito.

Em todos os casos, nós, brasileiros, gostamos de participar de eventos históricos. Talvez, por não termos desempenhado um papel de protagonistas, antagonistas e nem sequer de coadjuvantes no período medieval, eu tenho a impressão que criamos uma vontade – mais ou menos oculta – de termos sido afetados pelos acontecimentos do período. Na realidade, essa é a única tese que eu consigo formular para justificar algumas ações que deliberadamente estamos tomando, especialmente quando penso no florescimento da religião cristã e na influência de Deus em todas as esferas da sociedade civil brasileira.

Supostamente, nas últimas décadas encontramos uma maneira de saldar esse ressentimento histórico. A cada dia, uma nova figura religiosa se insere no campo da política nacional; e as doutrinas cristãs se infiltram em diversos setores da política, desempenhando um papel profundo e obscuro no Estado. Eis nossa maneira de celebrar a Idade Média da qual não fizemos parte – e, talvez, de tentar ressuscitá-la: pouco a pouco aceitamos que a religião dite o ritmo da democracia.

Diante da história, presenciamos aqui uma involução. Teoricamente, nas repúblicas contemporâneas, Deus não poderia ser eleito nem as questões religiosas deveriam interferir nas coisas do Estado. Essa distinção não poderia ser mais simples: os problemas terrenos são responsabilidades estatais, os problemas supraterrenos são da alçada divina. Da perspectiva conceitual, temos aqui um raro exemplo de consenso: eu, ao menos, desconheço qualquer teórico contemporâneo (seja da Filosofia, seja da Ciência Política, seja da Sociologia, seja do Direito) que contestaria a necessidade da separação entre as duas esferas.

Porém, um Estado laico, no Brasil, não passa de um conto de fadas. Uma fina ironia, provavelmente escrita e dirigida por alguém como o Woody Allen. Eu devo chamar a atenção para o fato de que a mesma constituição federal que garante, em princípio, a laicidade da república, é a mesma que promulga suas leis fundamentais <<sob a proteção de Deus>>. Isso é literal. O conceito de Deus abre o conjunto de nossas leis maiores. Então, a separação entre política e religião já nasce sepultada. E o cristianismo concede a extrema unção.

12476936_10205971303503808_1968674485_oNos últimos anos tal quadro se agravou. O Brasil presencia uma ascensão meteórica de uma vertente evangélica que uniu ainda mais Deus ao Estado: os neopentecostais, uma dissidência teológica do pentecostalismo. Diversas “Igrejas” foram fundadas e se espalharam rapidamente pelo território nacional. O aumento no número de fiéis é realmente surpreendente. E até mesmo a Igreja Católica, doutrina massivamente dominante por aqui, começa a sentir uma queda expressiva de fiéis. Entre os principais atrativos dessa nova “modalidade” de religião está a chamada teologia da prosperidade. A ideia defendida por ela é a de que a benção financeira é o desejo/projeto de Deus para os cristãos, e que a fé e as doações para os ministérios cristãos sempre irão aumentar a riqueza material do fiel.

Ora, a proposta é atraente. Não é necessário muito esforço para notar como essas Igrejas prosperaram tão depressa. A fórmula é clara: a promessa de riqueza atrai adeptos. Adeptos que estão dispostos a colaborarem financeiramente para a obtenção da recompensa divina. Quanto maior o número de seguidores, maiores serão as arrecadações de “dízimo”. E, assim, as Igrejas neopentecostais criaram um verdadeiro império e uma indústria religiosa; e, assim, seus fundadores tornaram-se rapidamente milionários.

Porém, dinheiro significa poder. E aqui começa o calvário da nossa democracia. Inúmeros candidatos são lançados e apoiados pela comunidade evangélica. Ano após ano, o aumento no número de fiéis reflete diretamente no aumento de representantes políticos dentro do nosso Poder Legislativo. Candidatos que, quando eleitos, arrastam para dentro das nossas instituições públicas os dogmas e as doutrinas religiosas.

Não é nada surpreendente que tanto no Senado Federal quanto na Câmara dos Deputados, uma Frente Parlamentar Evangélica tenha sido formada para defender interesses que são, sobretudo, de orientação religiosa. Essa Frente, constituída por políticos de diversos partidos, essencialmente conservadores, possui uma agenda de posições muito específica: são contrários ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, são hostis ao direito do aborto e da eutanásia, são desfavoráveis à criminalização da violência contra homossexuais, bissexuais e transexuais. São defensores, por exemplo, do Estatuto da Família, cuja proposta é reconhecer como “família” apenas a entidade formada a partir da união entre um homem e uma mulher. Tal projeto, de forte tendência religiosa, causa sérias complicações para a adoção de crianças por casais homoafetivos.

O dogmatismo religioso, enfim, apresenta sua face corrosiva às instituições democráticas. A partir de agora, nenhum projeto que contrarie os preceitos teológicos dessa religião pode ser aprovado e tornar-se lei. Não existe, nem mesmo, a possibilidade de levar adiante qualquer forma de discussão mais progressista. É o caso, por exemplo, das propostas sobre a legalização da maconha. Ou, ainda – em um caso mais dramático – sobre a legalização do aborto, mesmo que em casos muito específicos (sobretudo neste momento, com a especulação de uma relação entre a microcefalia durante a gravidez de mulheres afetadas pelo Zika vírus). De qualquer forma, são projetos que precisam da maioria no Congresso. Maioria que depende da Frente Parlamentar Evangélica, que possui a simpatia e articula-se com outros grupos políticos. Frente Parlamentar Evangélica que nunca aceitará qualquer programa que fira os preceitos religiosos.

A Idade Média, então, não parece tão distante. Centelhas desse período ainda estão vivas. Mais perturbador que notar que o Estado e a religião ainda possuem uma conversa íntima, é perceber que as questões divinas estão influenciando (e emperrando) as entidades democráticas atuais. Especialmente o direito das minorias, que é inescrupulosamente ameaçado por um fundamentalismo perigoso. Infelizmente, isso não parece ser uma tendência apenas brasileira. Não foi na Itália, dias atrás, que católicos e muçulmanos se uniram e se posicionaram contrários ao casamento de indivíduos do mesmo sexo e à adoção de crianças por casais homoafetivos durante o Family Day? Novamente Deus – que, suponho, não tenha lá muito interesse nos problemas de Estado – é arrastado para dentro da política.

Em seu nome, os políticos sangram tanto ao Estado, às minorias e ao Divino.

 

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IL BRASILE E IL RITORNO VELATO AL MEDIOEVO

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Un’opera del disegnatore brasiliano Carlos Henrique Latuff de Sousa – 2013

Il Brasile non ha avuto un Medioevo. Almeno non in senso storico. L’Europa dominerebbe ancora per un certo periodo di tempo e raggiungerebbe persino il Continente americano per colonizzare – col ferro, il fuoco e il crocifisso – i nostri indiani nativi.

Apparentemente, però, tutto questo non ha impedito che guardassimo il Medioevo con un certo passatismo. Uno strano passatismo, è vero. Una nostalgia che non è veramente nostalgia. È un sentimento che enfatizza il passato, che riaccende il sapore di quel che la storia racconta con benevolenza e mette in imbarazzo tutte le atrocità che hanno segnato il cammino dell’umanità. Così allo stesso modo dimentichiamo abitualmente l’inferno portato dai conquistatori ai danni dei popoli indigeni d’America, dipingendoli come degli eroici pionieri. Poiché romanzare gli uomini del passato sembra riconfermarsi una tendenza fin troppo umana.

In tutti i casi, noi brasiliani ci compiaciamo d’esser partecipi in qualche evento storico. Non abbiamo ricoperto un ruolo da protagonisti, antagonisti e nemmeno da coadiuvanti nel periodo medievale e ho l’impressione che, forse, creiamo una volontà – più o meno nascosta – per provare ad essere annoverati dagli eventi storici. In realtà, questo è l’unica motivazione che posso formulare per giustificare alcune tendenze che oggi stiamo prendendo sempre più deliberatamente, specialmente quando penso alla fioritura della religione cristiana e nell’influenza di Dio in tutte le sfere della società civile brasiliana.

Presumibilmente, negli ultimi decenni abbiamo trovato un modo per saldare questo risentimento storico. Ogni giorno una nuova figura religiosa irrompe nel campo della politica nazionale; e le dottrine cristiane finiscono per infiltrarsi in vari settori della politica, esercitando una profonda e oscura funzione nello Stato. Questo è il nostro modo di celebrare il Medioevo di cui non abbiamo fatto parte – e forse di resuscitarlo: a poco a poco, accettiamo che la religione imponga il ritmo della democrazia.

Per rispetto alla storia, non possiamo che constatare qui un’involuzione. In linea di principio, nelle repubbliche contemporanee Dio non potrebbe essere eletto e nemmeno le questioni religiose dovrebbero interferire con la cosa pubblica. Questa distinzione non potrebbe essere più semplice: i problemi terreni sono responsibilità dello Stato, quelli ultraterreni sono di competenza divina. A riguardo, troviamo un raro esempio di consenso: io, almeno, non conosco nessun teorico contemporaneo (della filosofia, delle scienze politiche, della sociologia, del diritto) che contrasterebbe la necessità di separazione tra queste due sfere.

Eppure, in uno Stato laico come il Brasile, tutto ciò non è altro che una fiaba. Una fine ironia, probabilmente scritta e diretta da qualcuno come Woody Allen. Occorre che richiami l’attenzione sul fatto che la stessa Costituzione federale che garantisce, in principio, la laicità della Repubblica è la stessa che promulga le sue leggi fondamentali <<sotto la protezione di Dio>>. Questo è letterale. Il concetto divino si fonde con le nostre leggi fondamentali. La separazione tra politica e religione, quindi, nasce già sepolta. E il Cristianesimo concede l’estrema unzione.

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Templo de Salomão – sede della Chiesa Universale del Regno di Dio. Per illustrare il potere della Chiesa: l’edificio ha avuto un costo approssimativo di 680 milioni di reais (ovvero 153 milioni di euro)

Negli ultimi anni, questo quadro si è aggravato ulteriormente. Il Brasile ha assistito ad un aumento eccezionale di una corrente evangelica che ha unito ancor più Dio allo Stato: i neo-pentecostali, un dissenso teologico del Pentecostalismo. Sono nate diverse “chiese”, che si stano diffondendo rapidamente sul territorio nazionale. L’aumento del numero dei fedeli è veramente sorprendente. E anche la Chiesa Cattolica, la dottrina massicciamente dominante, comincia a risentire una calo significativo di fedeli. Tra le principali attrattive di questa nuova “modalità” di religione è la cosiddetta teologia della prosperità. Quest’ultima sostiene che la benedizione finanziaria è il desiderio/piano di Dio per i cristiani, e che quindi la fede e le donazione per i ministeri cristiani accresceranno sempre la ricchezza materiale dei fedeli.

Ora, la proposta è attraente. Non bisogna sforzarsi tanto per comprendere i motivi per cui queste chiese abbiano prosperato così in fretta. La formula è chiara: la promessa di ricchezza attrae sostenitori. Sostenitori che sono disposti a contribuire economicamente per ottenere la ricompensa divina. Maggiore è il numero di seguaci, maggiori saranno le riscossioni del “dizimo”. E così le chiese neo-pentecostali hanno creato un vero e proprio impero, un’industria religiosa; e così i suoi fondatori sono diventati rapidamente dei milionari.

Tuttavia, denaro significa potere. E qui comincia il calvario per la nostra democrazia. Numerosi candidati vengono infatti lanciati e sostenuti dalla comunità evangelica. Anno dopo anno, l’aumento del numero di fedeli si riflette direttamente nell’aumento di rappresentanti politici all’interno del nostro potere legislativo. Candidati che, una volta eletti, trascinano all’interno delle nostre istituzioni i dogmi e le dottrine religiose.

Non deve sorprenderci, quindi, che nel Senato e nella Camera dei Deputati (nostro legislativo federale) sia stata costituita una Bancada Evangélica (trad: Fronte Parlamentare Evangelico) per difendere gli interessi principalmente di orientamento religioso. Questo Fronte, composto da politici di vari partiti – soprattutto conservatori – ha una linea di azione con posizioni ben precise: sono contrari al matrimonio tra persone dello stesso sesso, sono ostili al diritto sull’aborto e l’eutanasia, sono sfavorevoli alla criminalizzazione della violenza contro gli omossessuali, i bissesuali ed i transessuali. Difendono, per esempio, lo Statuto della Famiglia, il cui scopo è quello di riconoscere come “unica famiglia” l’entità formata dall’unione tra un uomo e una donna. Questo progetto, con un’evidente e forte tendenza religiosa, comporta gravi complicazioni riguardo all’adozione di bambini da parte delle coppie omosessuali.

Il dogmatismo religioso, dunque, mostra tutto il suo volto corrosivo per le istituzioni democratiche. D’ora in poi, nessun progetto in contrasto con i precetti teologici di questa religione potrà essere approvato o diventare legge. Non c’è neppure la possibilità di portare avanti qualsiasi forma di discussione più progressista. Questo è il caso, ad esempio, delle proposte di legalizzazione della marijuana. Oppure – in un caso più drammatico – della legalizzazione dell’aborto, anche in casi molto specifici (soprattutto ora, con la speculazione di un legame tra la microcefalia durante la gravidanza delle donne ammalate con il virus Zika). Ad ogni modo, questi intenti necessitano della maggioranza nel Congresso. Maggioranza che dipende dalla Bancada Evangélica, che riscuote la simpatia e si lega con altre compagini politiche. Il Fronte Parlamentare Evangelico non accetterà mai qualsiasi programma che offenda i precetti religiosi.

Il Medioevo, allora, non appare più così lontano. Le scintille di un tale periodo sono ancora vive. Ciò che desta preoccupazioni oltre al fatto che lo Stato e la religione vivano un’intima conversazione, è vedere che gli elementi divini stanno influenzando (e frenando) le entità democratiche attuali. In particolare i diritti delle minoranze, disonestamente minacciati da un pericoloso fondamentalismo. Sfortunatamente, questa non sembra essere una tendenza solo brasiliana. Non si è vista in Italia, giorni fa, un’unione tra cattolici e musulmani per difendere la posizione contraria al matrimonio tra coppie dello stesso sesso e l’adozione di bambini da parte delle coppie omosessuali – il cosiddetto Family Day? Di nuovo Dio – che, suppongo, non nutre molto interesse per le questioni di Stato – viene trascinato dentro la politica.

E nel nome di Dio, i politici uccidono lo Stato, le minoranze e il divino.

 

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Il Fronte Parlamentare Evangelico organizza una manifestazione contro il Gay Pride all’interno della Camera dei Deputati, mostrando immagini di sesso esplicito

 

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About Douglas Fedel Zorzo

CORRISPONDENTE DALL'ESTERO | Brasiliano, nato a Toledo (Paraná) nel 1989. Discendente di immigrati italiani, è laureato in Filosofia ed è dottorando in Etica e Filosofia Politica presso l’UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Dichiaratamente repubblicano, è interessato ai problemi della democrazia odierna. Avido lettore degli scrittori del Rinascimento fiorentino, nel tempo libero si trasforma in un cinefilo e banjoista. Attualmente vive a Milano.

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